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ENCONTROS E DESENCONTROS

Foi para falar de boemia, arquitetura, arte, memória, cultura e afins que convidei um time de amigos, profissionais que compactuam com a ideia de uma cidade mais humana.
Jessica De Carli

Arq. Jessica De Carli

jessica@jessicadecarli.com.br | 54 3025.1101

Há algum tempo decidi morar no Centro. Caminho todo dia até o trabalho. Nessas idas e vindas, confirmei aquilo que, intuitivamente, já sabia: os bares são os zelosos cuidadores da nossa cidade.
Nada me dá mais segurança quando a noite cai, que os boêmios nas calçadas. Calçadas vivas e em movimento. 
Acredito que uma cidade sustentável se faz de pessoas que interagem com sua estrutura social. Nesse contexto, o pedestre é o foco da vida urbana. Pedestre não dispensa um cafezinho, um breve lanche no balcão, os cinco minutos naquele bar que conhece desde sempre, onde os frequentadores batem ponto, onde o dono chama o cliente pelo nome, onde nos sentimos em casa. 
Dos bares mais tradicionais de Caxias do Sul, eu escolhi o Bar 13 para ser o personagem do meu livro TREZE. Funcionando há 50 anos, na Avenida Júlio de Castilhos, 1.511, o Bar 13 incorporou-se de tal forma ao cotidiano que se tornou um patrimônio da cidade. 
Espécie de filho temporão, o Boteco 13 nasceu quando o Bar 13 já passava dos 40. Levou sua tradição a outro ponto histórico da cidade: a Estação Férrea, que em 2010 celebrava os 100 anos da chegada do trem. 
Nasceu junto com uma vontade latente da Estação transformar-se em um ponto de muitos encontros. Encontros e desencontros, dentro da ideia de as cidades serem um imenso laboratório de tentativa e erro. 
Nessas tentativas, acredito que mais se acertou do que se errou. A diversidade de usos da Estação propiciou uma sustentação mútua, tanto econômica quanto social.
A vida urbana ao redor do Moinho da Estação se dá justamente pela mágica do cotidiano, do entra e sai dos escritórios, da feira de toda a terça-feira, da noite que chega, dos bares que acendem. 
Assim como um organismo vivo, esse espaço adoece e carece dessa eterna presença das pessoas, que, por sua vez, atraem outras pessoas. 
De bar em bar, as pessoas foram chegando e se ambientando, alguns foram e voltaram, outros foram e se foram. Vimos passar os bares da moda, vimos uma diversidade de som e música, pessoas iguais a gente e diferentes também. Hoje a Estação Férrea é um espaço democrático social. As ruas ganharam vozes, e as calçadas ganharam movimento.
Porque desses desencontros da vida, os melhores encontros se dão sempre em balcões de bares.
Trecho do Livro TREZE, lançado pela arquiteta em 13 de setembro de 2017, obra financiada pela Lei de Incentivo a Cultura Municipal. Design gráfico Marco Verdi.
Fazem parte dos 13 capítulos do Livro, os seguintes autores:
Luiz Carlos Ponzi , com “Mágicas do bar treze”
Rodrigo Lopes, com “Vizinhos, Lembranças e outros petiscos”
Marco Verdi, com “Cinquenta vezes treze”
Pedro Horn Sehbe, com “Um século em uma praça de amor”
Giulia Sant’Anna, com “Relatos de uma estrangeira”
Matheus Chemello, com “Palpites sobre São Pelegrino” 
Nivaldo Pereira, com “Sintonias astrais”
Mara De Carli dos Santos, com “À mesa da família”
A arquiteta Jéssica De Carli escreve os capítulos: “Reza a lenda”, “Somos todos portugueses”, “Encontros e desencontros”, “O colorido dos azulejos”, “Um avô e um amigo”

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